No sopé da Cordilheira dos Andes, Salta – “la linda” – mostra natureza agreste.


Paisagem saltenha é cinematográfica. Aqui, um parque com milhares de cactos (fotos de Ariel Palacios)

“La linda” (A linda). Com estas duas e simples palavras os argentinos definem a província de Salta, incrustada no noroeste argentino, no sopé da Cordilheira dos Andes. Argumentos para defender a expressão que costuma designar Salta existem de sobra. Além da arquitetura colonial da capital homônima – e da suculenta gastronomia local, que mistura origens indígenas com a contribuição do colonizador espanhol e um touch de imigrantes árabes e italianos – a província conta em seu lado oriental com paisagens monumentais talhadas pelas água e o vento onde acumulam-se vinhedos, cactos, areias e riachos. Além do turismo, a província está sendo cada vez mais procurada como destino de eventos e incentivos em virtude de suas paisagens exóticas e dos programas relacionados ao mundo dos vinhos.




Igreja de São Francisco, na cidade de Salta.


Cabildo da cidade de Salta.

Salta, a cidade capital, conta com o museu de Arqueologia de Alta Montanha, que exibe múmias indígenas (os denominados “Niños de Llullaillaco”, uma oferenda aos deuses feita no ritual “Capacocha” encontrada a 6.700 metros de altura na Cordilheira) dos tempos da presença do império inca no noroeste da Argentina, além de um rico artesanato dos tempos pré-colombianos.

O Cabildo de Salta, a antiga sede do poder político, exibe a riqueza que a província teve nos tempos coloniais, quando era uma escala comercial entre o porto de Buenos Aires e as minas de ouro e prata da atual Bolívia. Nesse período também floresceram conventos, mosteiros e igrejas, das quais os exemplos mais emblemáticos são o convento de San Bernardo, habitado pelas carmelitas, e a Igreja de San Francisco. A catedral da cidade, construída no século dezenove, exibe a imagem da Virgem do Milagre, à qual os setores mais religiosos de Salta atribuem a salvação de parte da cidade no violento terremoto de 1642.

Com seu magnetismo gerado pela arquitetura, gastronomia e intensa vida cultural, Salta costuma reter o turista na cidade. Mas, a província oferece uma miríade de pontos de interesse mais além da cidade.


Praça central da cidade. Vista da catedral desde os cafés.


Mais um detalhe da catedral.

Desde Salta, em direção à cidade de Cafayate sai a estrada número 68, em direção ao sul. Após passar pelo vilarejo de Alemanía – que desde os anos 80 e 90 transformou-se em refúgio de hippies remanescentes da década de 70 - a paisagem verde dos campos saltenhos transforma-se drasticamente e é substituída por montanhas polidas pela erosão ao longo dos séculos. Ali começam os Vales Calchaquíes.

Um dos pontos de interesse para os turistas na Quebrada de las Conchas (rochas sedimentarias de 60 a 90 milhões de anos) é o “anfiteatro”, uma espécie de “sala de ópera” cavada pela natureza que ocasionalmente é usada para concertos de música erudita e folclórica.


Bodes trafegam placidamente na lateral da estrada entre Salta e Cafayate.


O “anfiteatro”.


Músicos entoam melodias no Anfiteatro.

Continuando pela estrada número 68 os turistas alcançam a cidade de Cafayate, cujo nome provém da expressão “Capac Yac”, que em língua indígena significa “Povo que tudo tem” ou “Sepultura das tristezas”.

A cidade, encravada no sopé da Cordilheira, possui um ritmo pacato. No entanto, suas noites são embaladas por grupos espontâneos de jovens e idosos que apreciam o folclore e os bailes locais.


Acima, paisagem pouco depois de sair de Cafayate em direcao à Cachi. É a “Quebrada de Las Flechas”.


Acima, paisagem pouco depois de sair de Cafayate em direcao à Cachi. É a “Quebrada de Las Flechas”.

Rumo ao norte, pela estrada número 40 o turista encontrará os vilarejos de Molinos, centro das festividades da Virgem da Candelaria. A igreja San Pedro Nolasco, seu primeiro templo, é de 1659.

Um pequeno desvio pela empoeirada estrada número 53 leva o curioso turistas por um trajeto com uma natureza agreste até Colomé, onde está instalada uma das mais antigas adegas do país.

Voltando à estrada número 40, pouco ao norte de Molinos está Seclantás, famosa por seus “ponchos” e demais produtos de tecelões que acumulam gerações familiares de experiência no ramo.

Seguindo por ali o turista chega a Cachi, um pitoresco vilarejo famoso por seu delicado artesanato e doces locais.

Ao sair de Cachi, rumo ao leste, voltando para Salta, está a estrada número 33, que atravessa o Parque Nacional Los Cardones. O parque exibe uma paisagem de milhares de altos cactus.


Vista da piscina do hotel Patios de Cafayate. Ao fundo, a pré-cordilheira dos Andes.


Vista dos corredores e páteos do hotel.


Adega El Esteco, dentro da cidade de Cafayate.

HOTÉIS E SPAS DE SALTA OFERECEM BANHO DE VINHO

O Hotel & Spa Patios de Cafayate é um dos mais interessantes da pequena cidade de Cafayate. O foco do estabelecimento é o vinho, já que os hóspedes bebem vinho e desfrutam da gastronomia local, intensamente vinculada à essa bebida. Além disso, ficam por dentro dos detalhes de sua produção, entre elas os vinhedos e visitas aos lugares onde a bebida é elaborada e envelhece.

Os passageiros também podem – literalmente – tomar banho em vinho no spa, onde os tratamentos para o relax são realizados com sais e cremes enológicas (das vinhas do hotel) que contêm as propriedades antioxidantes dos polifenóis da uva.

O hotel, além do “wine spa” é famoso por contar com um restaurante refinado que propicia ao hóspede os quitutes locais com um touch “aggiornado”, possui uma piscina ao ar livre que tem vista para as montanhas da pré-cordilheira dos Andes. Os preços no Patios de Cafayate estão acima de US$ 484 www.patiosdecafayate.com).

Na cidade de Cachi, no ponto central dos vales Calchaquíes, está um antigo mosteiro transformado em hotel, o “La Merced del Alto”, administrado pela tradicional família Patrón Costas. O estabelecimento está em uma área elevada da periferia de Cachi, que propicia uma vista panorâmica do vilarejo e das montanhas ao redor. Dali partem diversos trekkings nas colinas da região. O restaurante do hotel, que conta com um menu repleto de iguarias – além de uma adega que desperta a inveja de muitos concorrentes - é um dos mais famosos da região. O “La Merced” conta com preços a partir de US$ 150 www.lamerceddelalto.com).

Em Colomé, ao oeste dos vales Calchaquíes, o turista tem a opção de repousar na fazenda e adega Colomé, criada pela família Hess que ali estabeleceu um requintado hotel, que conta com um restaurante com vista para os vinhedos. A adega também conta com o museu que reúne grande parte da obra do artista plástico James Turrell. Os preços do hotel em Colomé estão a partir de US$ 390 www.estanciacolome.com).

Ao voltar à cidade de Salta, uma das melhores opções é o Hotel Sheraton Salta, construído em 2005, é um dos principais da capital, situado em um bairro residencial ao lado do monumento a Miguel de Güemes, o herói par excellence dos saltenhos, famoso por sua coragem e gosto acentuado pelos uniformes elaborados com requinte. O hotel possui um dos melhores restaurantes da cidade e uma bela vista panorâmica desde seu lobby bar, ideal para assistir o pôr-do-sol. O Sheraton conta com valores acima de US$ 184 www.starwoodhotels.com).

Salta também conta com o hotel “Solar de La Plaza” está em pleno centro histórico de Salta, a três quarteirões da catedral. O elegante edifício em estilo neo-colonial, com quartos decorados com móveis antigos – mas sem perder os confortos tecnológicos atuais – é um dos marcos da área central da capital provincial. O Sola de la Plaza possui preços acima de US$ 190 (www.solardelaplaza.com.ar).


Cemitério na estrada entre Cafayate e Molinos.

‘TORRONTÉS’ É A ESTRELA ASCENDENTE DOS VINHOS DO NOROESTE ARGENTINO

Cafayate é o centro de diversas adegas boutique da província. Seu clima seco, as temperaturas de 15 a 18 grus Celsius durante o período de crescimento das uvas, luz solar ao longo de 350 dias por ano além do solo arenoso, permitiu nos últimos anos o desenvolvimento de vários vinhos de alta qualidade. Diversas adegas existiam ali desde o final do século dezenove. Mas, só começaram a prosperar nos anos 90, quando novas tecnologias foram incorporadas às pequenas empresas. Os vinhos de Cafayate são mais estruturados e possuem cores mais fortes.

A estrela dos vinhos da região é o “Torrontés”, um vinho branco com prestígio ascendente na Argentina, EUA e Europa. As adegas da região também produzem Malbec, e o Tannat. Este último era considerado o vinho uruguaio par excellence. Mas, a crescente produção em Cafayate chamou a atenção dos uruguaios, que –assustados com a qualidade do Tannat cafayatenho – passaram a associar-se com adegas da região.

Umas das adegas de maior destaque em El Cafayate é “El Porvenir”, fundada em 1890 por uma família de imigrantes italianos. Seus vinhedos, espalhados em 78 hectares estão a 1.750 metros de altura. A produção é de 200 mil garrafas por ano. O vinho é armazenado em 600 barris de carvalho americano e francês,

A outra adega de prestígio é “El Esteco”, cujas instalações estão na mesma área do hotel Patios de Cafayate. Na época da colheita das uvas o Patios realiza para seus hóspedes degustações coordenadas por enólogos, além de jantares no meio dos vinhedos.

Na entrada da cidade, “El Esteco”, possui 400 hectares de vinhedos, plantados em 1946. Entre as variedades estão o Malbec, Cabernet Sauvignon, Bonarda, Shiraz e o Tannat. “Altimus” e “Ciclos” são os vinhos mais caros da “El Esteco”. O grande destaque desta adega é a linha “Don David” pela relação custo/benefício”.

Além dessa, existem várias adegas que estão no centro de Cafayate. Uma das mais antigas é a “Vajilla Secreta”. Outras adegas de peso na cidade são a “Finca Las Nubes” e “San Pedro de Yacochuya” (esta última, do famoso especialista internacional em vinhos Michel Rolland).

Outras adegas espalham-se pelos vilarejos de Molinos e Colomé. A maior parte das adegas está em uma franja de altitudes que varia dos 1.750 a 2.600 metros de altura.


Uma taça de torrontés brilha sob o sol. Ao fundo, os vinhedos de Colomé.


O restaurante e os vinhedos da adega Colomé.

SALTA POSSUI AGENDA CHEIA DE FESTAS POPULARES TODO O ANO

A província de Salta possui uma agenda cheia de festas populares ao longo de todo o ano. O calendário começa no dia 22 de fevereiro quando Cafayate é embalda pela “Serenata”, que constitui um festival folclórico que reúne músicos de toda a região, além de feiras de artesanato, gastronomia regional e vinhos locais.

Abril é o mês que agita a cidade de Salta com “Abril cultural saltenho”, que aglutina na capital provincial artistas plásticos, atores e músicos.

Em meados de julho (as datas variam de acordo com o calendário escolar) a cidade de Salta é o cenário do “Concurso das empanadas”. O quitute sine qua non da província é o foco da competição entre centenas de “empanaderas” que disputam a glória do prêmio.

Na primeira semana de agosto as festas mudam-se para San Antonio de los Cobres, no centro-oeste da província. Ali é realizada a Festa Nacional da Pachamama (mito incaico da mãe-terra fortemente arraigado nas comunidade indígenas).

Novembro é o mês da Festa da Tradição, que reúne nos vilarejos de La Candelaria e Campo Quijano desfile de “gauchos” e carroças, além de corridas de cavalo e destreza hípica (da qual os saltenhos são muito orgulhosos). E, como não podia deixar de ser na musical Salta, a festa também é acompanhada de um festival de música folclórica.


Turistas europeus nas ruas da pintoresca Cachi.


O hotel Merced del Alto. Ao fundo, a pré-cordilheira. Desde esse hotel partem vários trekkings nas montanhas da vizinhança.


Paisagem ao redor do Merced del Alto.


Vista da sala do restaurante do Hotel Sala de Payogasta (ali, o queijo de cabra é … “sublime”, para ser espartano no elogio). O site: www.saladepayogasta.com.ar Dali para a frente, a imensidão.


Pimentões secando no sol saltenho.


Paisagem em estrada saltenha.


O blogueiro (que nesta ocasião era também fotógrafo) viajou a convite de Venturas & Aventuras, Andes Linhas Aéreas e Governo da província de Salta.